Thursday, February 7, 2008

As Palavras que não existem, mas que queria tanto dizer…

O contacto com as pessoas de quem cuido e com as suas famílias é sempre uma das mais importantes etapas da minha aprendizagem em Ensino Clínico.

As pessoas que se encontram internadas na UCI estão, por norma, em situações muito frágeis de saúde. Todos os dias são batalhas e as certezas são muito limitadas no tempo. A verdade é que, por vezes, mesmo com todos os procedimentos e todos os cuidados prestados, o organismo não responde, ou demora a responder. Não há duas pessoas iguais, não há duas respostas iguais ao tratamento e aos cuidados instituídos. Feliz ou infelizmente (dependendo dos casos) o que é verdade hoje amanhã pode já não ser…

Para além da dificuldade que pode ser não dar informações que fogem da nossa área de competência, na UCI acresce-se a dificuldade de não poder dizer o que os familiares querem ouvir. Às vezes o desespero de ouvir que vai ficar tudo bem é tão evidente que torna-se difícil contornar as palavras… A verdade é que não se sabe se vai ficar tudo bem, a verdade é que pode mesmo não estar tudo bem e conseguir dar força às famílias sem lhes dizer mentiras ou iludi-las com realidades demasiado hipotéticas pode ser um exercício muito complexo e muito doloroso a nível emocional. É necessário conhecer bem os limites da informação a dar e também a forma como se pode, dizendo a verdade e explicando a situação geral da pessoa, deixar menos inquietas e mais confortadas as famílias das pessoas cuidadas. Descobri, ou redescobri, como pode ser importante apenas ouvir, escutar, mostrar interesse em saber quem é a pessoa, quem são os filhos e netos, as histórias de uma vida, o amor de tantos anos, que continua ali, agarrado à mais forte das esperanças, da fé de que não é já que “a morte os vai separar”.

A primeira reacção é fugir, não tenho dúvidas de que qualquer humano que se depare com este desafio, não tenha como reacção escapar do momento… Mas depois de parar para respirar e reflectir sobre a situação enfrenta-se o medo e descobrem-se coisas fantásticas na relação com o outro.

A experiência que tenho tido com as famílias das pessoas de quem cuido na UCI tem sido muito interessante. A última vez que estive com a esposa do Sr. A emocionei-me. O Sr. A tem uma patologia cardíaca, que agudizou e o levou para a cardiologia. Entretanto o Sr. necessitou de suporte ventilatório e foi transferido para a UCI. Tem uma família grande o Sr. A, com muitas crianças e com alguns momentos de dor, já passados (o Sr. perdeu um dos seus filhos à anos atrás). Ao contactar com a esposa do Sr. percebi o tamanho do amor que os unia. Emocionei-me pela força e preserverança daquele amor, daquela Senhora, que enquanto tenta ter forças para manter viva a esperança, mantém viva a união da família que construiu com o seu marido.

Conversar com esta senhora ajudou-me a compreender a importância do gesto de estar ali, mais que aquilo que podia dizer, foi importante pelo que pude ouvir e pelo que deixei que partilhassem comigo. Esta é uma história que parece encaminhar-se pela positiva, o Sr. teve alta do serviço e irá continuar, por mais uns tempos, a viver o amor da sua família. Outras são as histórias em que é preciso conter as ilusões, chamar à realidade, deixar que a pessoa perceba a importância de viver um passinho de cada vez…

Como ainda estou a viver tudo isto é difícil discernir, reflectir desde já sobre as aprendizagens a retirar. Percebi que tinha medo disto, mas que estou a ser capaz de enfrentar os desafios.

Percebi também que não me quero defender de algumas histórias das pessoas que se cruzam comigo. O amor que conheci do Sr. A e da sua família emocionou-me, é certo, mas fez-me ver como existem pessoas felizes e que encontram o equilíbrio nas suas vidas, e parece-me que ser Enfermeiro, também é, ser pessoa e viver das emoções dos momentos que, na sua simplicidade nos preenchem a alma e nos fazem desejar continuar o caminho…


Setúbal, 2 de Dezembro de 2007

E.E. Rita Santiago